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28 de setembro de 2010

Reticências De Uma Guerra (do livro MARCA D'ÁGUA - Contos de Amor e Morte, 2009)

Mariana tinha aquela dor no peito que era constante, assim como uma saudade amargurada que corrói a alma embriagando o corpo e adormecendo a mente. Sabia-se que na distância, haveria o medo da falta, haveria a solidão impregnada no cheiro do outro corpo que falta. Há muitos anos estava ali à espera de Túlio, que partira junto ao comando do exército numa missão de ajuda humanitária no Haiti. Uma guerra civil e sangrenta que eclodira em fevereiro de 2004, conflitos armados surgiram em Gonaives, espalhando-se por outras cidades nos dias subsequentes. Gradu-almente, os insurgentes assumiram o controle do norte do Haiti. Apesar dos esforços diplomáticos, a oposição armada ameaçou marchar sobre Porto Príncipe. Aristide deixou o país em 29 de fevereiro e asilou-se na África do Sul. Uma guerra civil emergiu no país consumindo milhares de vidas. Eram crianças e mulheres morrendo de fome por entre aquelas aldeias abandonadas a miséria. O politicamente correto estava incorreto, e Túlio como um bom e servil soldado, estava ali para amenizar o sofrimento daquela gente numa missão de paz pela ONU. Entre rajadas de metralhadoras e ba-las de diversos calibres, na capital Porto Príncipe, Túlio caminhava com pensamentos voltados ao Brasil que deixara com saudades de sua amada Mariana, em breves relâmpagos de lembrança em sua memória, podia se delirar sentindo seus beijos quentes roçar a sua pele morena. Podia sentir seus lábios úmidos de desejo lhe tocar a face, e com olhos cerrados, por instantes, podia se isolar na mais pura sensação de ter ela ali diante de si. Como um bom comandante Túlio sabia que seus subordinados, assim como ele, tinham na mente a saudade de suas famílias, e sempre que possível, entre uma missão e outra, tentava alegrar alguns de seus mais próximos amigos, com brincadeiras do tempo de colégio, muito se tentava esconder por ali, e muito se tentava esquecer também. Cenas de violência e morte eram uma constante no dia a dia daqueles soldados que acostumados, vez ou outra carregavam em seus colos pequenas crianças esqueléticas para os acampamentos da Cruz Vermelha na esperança de salvar algumas vidas. Túlio se acostumara com a sede, com a fome, com o frio, com a saudade, mas não se acostumar com a morte, apesar dela fazer parte integrante de sua vida, sempre próxima, sempre esguia e furtiva, a espreita em cada missão por aqueles becos sujos de lama e esgoto, becos mal cheirosos e cheios de doenças e dor. Mariana no Brasil sentia com sua alma, a angústia de Túlio do outro lado do oceano. Pelos telejornais acompanhava com apreensão qualquer noticiário que falava daquela cala fausta guerra. Seus olhos não desgrudavam um só segundo da tela, e seu coração disparava com desespero ao ver, mesmo que por breves momentos, imagens de soldados brasileiros em tanques de guerra passando pelo meio de escombros e uma multidão de famintos. A esperança de ver Túlio se tornava pública a cada cena da reportagem, mas por desencanto, nunca o via, apenas sentia que estava ali. Vez ou outra uma carta postada há meses chegava a sua mão, com palavras de carinho, de amor e de saudades, algumas fotos recentes estavam coladas no álbum para uma breve busca. Sempre com mensagens de esperança, Túlio relatava em suas às vezes mal traçadas linhas, o dia, à noite e as madrugadas sem dormir, preso a uma ansiedade de não se saber o futuro. Sempre de forma carinhosa, brincava com certas palavras e fazia de certo modo piadas com a própria desgraça. Lamentos escritos como em versos poéticos, desventuras de um soldado em uma terra distante. Os meses para Mariana pareciam anos, mas para Túlio parecia ser uma eternidade, pois a angústia crescia visceralmente no peito. Para Mariana o retorno de Túlio ao Brasil, significava mais do que a volta do seu homem amado, significava uma vida inteira de sentimentos vivenciados desde a tenra idade. Conheciam-se desde pequenos, quando com quatro anos, se deram as mãos no balanço do parque, e num beijo na face, simples e sem pretensão, juraram ficar junto o resto de suas vidas. Chegou à adolescência e conflitos tornaram a relação instável, mas o amor que sentiam, a energia que trocavam, superava tudo aquilo que lhes tentava afastar. Muitos furacões passaram por eles até a fase adulta, quando com o mês escolhido do casamento, Túlio recebe de seu comando, ordens para embarcar em uma missão de paz. Vê nesta missão a oportunidade de encerrar talvez a sua carreira militar com honras e méritos, além de uma boa ajuda de custo durante os anos que permaneceria fora. Marina não gostou e aceitou muito bem a ideia de inicio, mas, percebeu que era o que Túlio queria, concordou com ressalvas e passou aqueles últimos meses diante de uma imagem de Santa Rita, sempre orando e pedido para que o protegesse e o trouxesse de volta. O retorno era aguardado com ansiedade, pois o casamento estava marcado, a casa pronta e Mariana em toda a sua carência afetiva, chorava às vezes por horas a fio em seu quarto, sua mãe preocupada, apenas ouvia os lamentos da filha sem poder fazer nada, apenas orar para que aqueles momentos apenas ficassem na memória como vagas lembranças.

Um novo amanhecer em Porto Príncipe, excepcionalmente naquela alvorada, o vento soprava suavemente de norte para sul, apenas podia se observar os galhos das arvores se deslocarem com pequena fluidez. Túlio estava no terraço de um velho e abandonado hotel, que servia de base para os brasileiros. Olhando o horizonte e vagando em pensamentos, talvez estivesse beijando como a brisa, o rosto lindo e sedoso de seu grande amor. Com um olhar vivido e perspicaz, volta-se para a rua principal, aonde uma pequena multidão de famintos, como em todos os dias se aglomeram e se acotovelam ferozmente em busca de um café da manhã, nota entre aqueles pedintes um negro alto e esguio que de forma furtiva se sobressai por entre eles, acompanha com o olhar todos os seus passos, repentinamente pode perceber que o rapaz esta sendo perseguido por mais outros quatro negros armados, com sua habilidade militar, nota que um dos quatro tem nas mãos uma granada, sentindo que o rapaz vai atirar a granada sobre a multidão, dá um grito de alerta aos soldados no térreo e simultaneamente, pula cerca de três metros do terraço até o solo, gritando com a multidão para que saiam dali. Num rápido sobressalto e com muita agilidade, consegue segurar o rapaz pelo pescoço, neste rápido ínterim, o mesmo desarma a granada tentando arremessá-la contra os portões do quartel em direção a multidão que tenta se proteger, num giro de destreza, segura a granada com as mãos e a coloca sobre o corpo do rapaz pressionando contra o seu peito, alguns milésimos de segundos numa luta corporal desigual, um breve, mas trágico e tomado pelo medo, todos se abaixam quando a granada explode. Apenas pedaços de corpos são encontrados atirados e queimados por todos os lados, um som de lamento e socorro vem de certa distância, num monte de lixo e madeira, Túlio ainda vive, balbucia algumas palavras e perde os sentidos. Uma multidão o cerca dando aos soldados muito trabalho para a remoção de seu comandante.

Um ano depois no Aeroporto de São José dos Campos, dentro da base aérea. Mariana, sua mãe e seu pai, aguardam ansiosos, o voo vindo de Porto Príncipe. Um avião da FAB foi especialmente fretado para este fim. Lágrimas involuntárias percorrem seu rosto enquanto o avião faz o taxiamento na pista, ao se aproximar lentamente em sua direção, seu coração palpita como se fosse explodir em pedacinhos, uma aflição lhe corrói, rói as unhas quando a porta é aberta, vê Túlio carregado por dois soldados, trajando sua farda de gala e por sobre sua jaqueta, inúmeras medalhas de honra e mérito, uma cadeira de rodas aguarda no pé da escada. A banda da FAB toca o hino nacional, aplausos se ouvem de alguns soldados enfileirados diante de um tapete vermelho. Túlio é colocado na cadeira de rodas e passa em revista aquela pequena tropa, no fim do tapete, Mariana, contendo as lágrimas, esboça um sorriso forçosamente ao ver a imagem de Túlio, apenas seu corpo, sem seus membros, pernas e braços. Num contido, mas aguardado choro, corre, se ajoelha e o beija longamente. Ele não pode abraçá-la, mas chora como criança e a beija como se fosse seu último momento. Algumas garças passam pelo céu, as nuvens surgem como do nada, o sol que lá fora brilhava apenas se esconde, talvez pela vergonha, talvez pelo medo de ter sido o culpado.

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