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28 de setembro de 2010

No Estilo da Vogue (do livro MARCA D'ÁGUA - Contos de Amor e Morte, 2009)

O nome Lavínia, vem do latim e significa a que se purifica, e tenho que concordar, ela continua linda, apesar dos seus quarenta e poucos anos de idade, sua foto está perfeita impressa na página central da Vogue Paris que por acaso achei sobre a mesinha de centro da sala, minha esposa tem dessas coisas, sempre compra esse tipo de revista para ficar olhando as fotos, num desses domingos de chuva fina, sem nada para fazer, aquela preguiça danada de ver TV ou algo assim, notei a revista sob meus pés e comecei a folhear sem muito interesse, quando num desses repentinos que dá, notei uma foto de uma pessoa que conhecia, mas só confirmei que era ela quando li seu nome na manchete da matéria: Lavínia Fernandez, estilista brasileira revoluciona a moda parisiense... Realmente é ela, quanto tempo que não a via, pensei desde os tempos do colégio há uns vinte anos atrás, me lembrei como se fosse ontem quando a conheci na papelaria do seu Alberico, próximo a portaria do colégio que estudavá-mos em São Paulo, na verdade já havia topado com ela várias vezes pelos corredores do colégio, mas nunca havia conversado com ela, sempre estava rodeada de amigas e de muitos pretendentes, Lavínia na verdade era amiga de Talita, que era amiga de João, que era amigo de Otavinho que era meu amigo, e nesta corrente de amizade fomos apresentados num repente só, nossos olhares se tocaram, e sinceramente, hoje posso dizer isso, meu coração quase saiu pela boca quando toquei sua mão fina e delica-da, mas parecia uma mão de um anjo, eu já era seu fã de vista, mas vendo-a ali, bem pertinho, suei frio e como sou muito tímido, fiquei meio que abobalhado sem saber o que dizer, foi bem prático, disse um “Oi” e fui respondido com o “Oi, tudo bem” mais lindo e sensual do mundo. Depois desta apresentação decepcionante, começamos a manter um contato mais constante no colégio, sempre nos víamos nos corredores do colégio, e ela, sempre linda, me cumprimentava com seu sorriso lindo e conquistador.

Quando conheci Lavínia, ela tinha quase quinze anos, acho que faltavam uns dois meses para fazer quinze, ou algo assim, sei que vivia na periferia com a mãe e seus dois irmãos menores, um de nove anos e outro de sete, seu pai saiu um dia para trabalhar e nunca mais voltou, fazia muito tempo que isso ocorrera, a mãe de Lavínia vivia de fazer limpeza e lavar roupas para os outros, tinham na ver-dade uma vida bem difícil, pois o dinheiro era escaço. Tive a oportunidade de algumas vezes ir até sua casa, não que eu fosse um riquinho ou coisa assim, mas a sua casa era na verdade um barraco, bem limpo e arrumado, mas o chão era de terra, e viviam amontoados em dois cubículos de mais ou menos 2 metros quadrados, apesar do espaço ser pequeno, uma coisa eu notava entre eles, eram muito unidos, e a gente sentia que ali eram felizes, sabe, eu sentia uma coisa muito boa ali, era uma coisa que, por exemplo, eu não sentia na minha casa, naquele barraco, naquele cubículo havia amor por todos os lados que penetrava em nossos poros e nos contagiava com isso, talvez fosse pelo fato de eu estar apaixonado por ela, mas Lavínia era linda, olhos negros, pele branca e delicada, mais alta do que eu, esguia, altiva, lábios formosos como dois gomos de tangerina, sempre preenchidos com um batom vermelho que nos dava vontade de beijá-los a todo instante. Todos os meninos no colégio sonhavam com ela, e quase todos, menos eu, tentaram de alguma forma namorar com ela, mas como sempre, com aquele seu jeito simpático e brincalhão, dizia um “não” tão gostoso que ninguém conseguia ficar com raiva dela, acho que se apaixonavam mais ainda. Teve um período que estávamos já no colegial e muitos desconfiavam que ela fosse lésbica, bem sabe como é. Os boatos correm, ela nunca namorou ninguém e vivia cercada de meninas, todo mundo comentava, mas que nada, Lavínia tinha era objetivo, como dizem, tinha foco na carreira, ela queria se formar para dar uma vida melhor para sua mãe e seus irmãos, e eu como a conhecia melhor, sempre me dizia que ia chegar lá, eu balançava a cabeça e concordava, ela era persistente e um pouco teimosa, mas eu amava ela, fazer o quê. Os anos se passaram rápido demais, tão rápido que não percebi que no dia da nossa formatura, ela estava como sempre linda, mas compenetrada e sua mãe emocionada, gritava aos quatro cantos “Aquela é minha menina, aquela é minha menina”, ela se formou em primeiro da turma e teve a honra de fazer o discurso de formandos, sei que é meio chato dizer isso, mas as palavras dela me tocaram profundamente e devo confessar que chorei em alguns momentos, talvez chorasse, pois sabia que não a viria mais, ou talvez estivesse chorando por saber que “ela chegaria lá”.

Lavínia passou entre os primeiros na Universidade de São Paulo para o curso de jornalismo, era seu sonho, seu objetivo, durante os quatro anos do curso tive muito pouco contato com ela, vez ou outra nos falavá-mos por telefone, mas aquela correria toda de São Paulo, eu estudando e tra-balhando, ela também, sobrou muito pouco tempo para nos-sa amizade, e a coisa foi descambando e indo para o brejo como se diz. Certo dia recebi o convite de sua formatura, mas não cheguei a ir, eu estava namorando e não queria ver La-vínia novamente, achei que meus sentimentos voltariam a se manifestar, resolvi me isolar e sinceramente, fiquei bem triste por esta minha atitude, eu deveria ter ido a sua formatura. Recebi notícias dela quando foi transferida para Paris, ela virou correspondente internacional, ela trabalhava numa grande editora como redatora de moda e foi transferida justo para a capital da moda, pensei comigo, seu sonho está a caminho. Lavínia desde seus 12 anos desenhava roupas nos mais diversos modelos e estilos em seus cadernos da escola, não havia um simples espaço em branco vazio sem seus rabiscos e esboços, a professora Nanci de artes sempre a elogiava e ninguém entendeu na época quando optou por jornalismo e não design de moda ou coisa parecida, mas como todos sabiam da situação de sua família, ninguém se importou muito com isso. Bem, acontece que nesta transferência do Brasil para Paris, ela chegou mais próximo do que queria. Seu objetivo não era ser jornalista, mas sim estilista, usou a profissão como um trampolim para conhecer as pessoas certas, tanto deu certo que certo dia, conheceu nada menos que a editora da Vogue América, e através dela conheceu um dos grandes nomes da moda parisiense, tal de Jean Paul alguma coisa, o fato é que nesse primeiro encontro, Lavínia como sempre abusada, mostrou uns desenhos seus para o estilista, o francês gostou tanto, que contratou ela para trabalhar em seu estúdio imediatamente, é claro que existem alguns fatos que não narrei aqui, mas existem coisas que sorte é um fator importante no sucesso de uma pessoa, acho que ser positivo como ela sempre foi, ajuda bastante. Ela permaneceu neste estúdio por uns dez anos, até que com o conhecimento adquirido e com seus contatos no mundo todo lançou no verão sua primeira coleção, que não preciso nem dizer, mas foi sucesso, por isso estava nas páginas da Vogue. Hoje Lavínia é uma mulher de sucesso internacional, continua linda como nunca, apesar de sua idade, mas um fato na matéria me chamou a atenção, aonde diz que continua “solteira” por opção e que não poderia se casar nunca, pois amou tão intensamente quando adolescente, mas optou em esconder seus sentimentos para que não perdesse o foco dos seus objetivos profissionais, resumiu a repórter da Vogue que: “optou por perseguir seu sonho profissional e renegou a segundo plano sua vida pessoal, mas que sabe que seu amor, mesmo no silêncio absoluto foi retribuído através dos olhares e pensamentos vividos numa grande amizade da adolescência e permanece eterno em sua alma...” Quando li aquilo, uma comoção tomou conta de mim, e como um pobre coitado imaginei, vejam só que pretensão, que seria eu seu grande amor, também delirei ao imaginar que ainda teríamos alguma chance num futuro não tão distante, fui acordado lá pelas cinco da tarde por meu filho que me puxava pela cami-sa e dizia “pai você não vem, a mãe está esperando”, notei a revista aberta sobre minha pernas com a foto de Lavínia olhando para o vazio, meu pé estava dormente, acho que cochilei ali enquanto viajava nos sonhos relembrando os tempos de nossa infância e adolescência, pude perceber e imaginar naquela foto da revista, que aquele olhar vazio e triste procurava em algum lugar a felicidade, fechei a revista e a coloquei no mesmo lugar que achei, naquela tarde, tive a sensação de uma dor enorme no coração, algo como te su-focasse subitamente, fiquei sem saber até hoje qual foi o grande amor de Lavínia, mas tenho certeza que ela foi meu grande amor.

2 comentários:

  1. "É melhor lançar-se em busca do triunfo, mesmo expondo-se ao insucesso, do que formar fila com os pobres de espirito que não gozam nem sofrem muito porque não conhecem vitória, nem derrota"
    É preciso falar o que se sente, o silêncio deixa muitas portas abertas e estas portas com o tempo acabam sendo fechadas. É preciso se arriscar em determinados momentos da vida, viver esta vida e não se deixar levar pelas circunstâncias. O silêncio não é real, o real são as palavras.

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  2. Será que vale a pena conquistar um sonho em detrimento de outro????

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