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28 de setembro de 2010

No Estilo da Vogue (do livro MARCA D'ÁGUA - Contos de Amor e Morte, 2009)

O nome Lavínia, vem do latim e significa a que se purifica, e tenho que concordar, ela continua linda, apesar dos seus quarenta e poucos anos de idade, sua foto está perfeita impressa na página central da Vogue Paris que por acaso achei sobre a mesinha de centro da sala, minha esposa tem dessas coisas, sempre compra esse tipo de revista para ficar olhando as fotos, num desses domingos de chuva fina, sem nada para fazer, aquela preguiça danada de ver TV ou algo assim, notei a revista sob meus pés e comecei a folhear sem muito interesse, quando num desses repentinos que dá, notei uma foto de uma pessoa que conhecia, mas só confirmei que era ela quando li seu nome na manchete da matéria: Lavínia Fernandez, estilista brasileira revoluciona a moda parisiense... Realmente é ela, quanto tempo que não a via, pensei desde os tempos do colégio há uns vinte anos atrás, me lembrei como se fosse ontem quando a conheci na papelaria do seu Alberico, próximo a portaria do colégio que estudavá-mos em São Paulo, na verdade já havia topado com ela várias vezes pelos corredores do colégio, mas nunca havia conversado com ela, sempre estava rodeada de amigas e de muitos pretendentes, Lavínia na verdade era amiga de Talita, que era amiga de João, que era amigo de Otavinho que era meu amigo, e nesta corrente de amizade fomos apresentados num repente só, nossos olhares se tocaram, e sinceramente, hoje posso dizer isso, meu coração quase saiu pela boca quando toquei sua mão fina e delica-da, mas parecia uma mão de um anjo, eu já era seu fã de vista, mas vendo-a ali, bem pertinho, suei frio e como sou muito tímido, fiquei meio que abobalhado sem saber o que dizer, foi bem prático, disse um “Oi” e fui respondido com o “Oi, tudo bem” mais lindo e sensual do mundo. Depois desta apresentação decepcionante, começamos a manter um contato mais constante no colégio, sempre nos víamos nos corredores do colégio, e ela, sempre linda, me cumprimentava com seu sorriso lindo e conquistador.

Quando conheci Lavínia, ela tinha quase quinze anos, acho que faltavam uns dois meses para fazer quinze, ou algo assim, sei que vivia na periferia com a mãe e seus dois irmãos menores, um de nove anos e outro de sete, seu pai saiu um dia para trabalhar e nunca mais voltou, fazia muito tempo que isso ocorrera, a mãe de Lavínia vivia de fazer limpeza e lavar roupas para os outros, tinham na ver-dade uma vida bem difícil, pois o dinheiro era escaço. Tive a oportunidade de algumas vezes ir até sua casa, não que eu fosse um riquinho ou coisa assim, mas a sua casa era na verdade um barraco, bem limpo e arrumado, mas o chão era de terra, e viviam amontoados em dois cubículos de mais ou menos 2 metros quadrados, apesar do espaço ser pequeno, uma coisa eu notava entre eles, eram muito unidos, e a gente sentia que ali eram felizes, sabe, eu sentia uma coisa muito boa ali, era uma coisa que, por exemplo, eu não sentia na minha casa, naquele barraco, naquele cubículo havia amor por todos os lados que penetrava em nossos poros e nos contagiava com isso, talvez fosse pelo fato de eu estar apaixonado por ela, mas Lavínia era linda, olhos negros, pele branca e delicada, mais alta do que eu, esguia, altiva, lábios formosos como dois gomos de tangerina, sempre preenchidos com um batom vermelho que nos dava vontade de beijá-los a todo instante. Todos os meninos no colégio sonhavam com ela, e quase todos, menos eu, tentaram de alguma forma namorar com ela, mas como sempre, com aquele seu jeito simpático e brincalhão, dizia um “não” tão gostoso que ninguém conseguia ficar com raiva dela, acho que se apaixonavam mais ainda. Teve um período que estávamos já no colegial e muitos desconfiavam que ela fosse lésbica, bem sabe como é. Os boatos correm, ela nunca namorou ninguém e vivia cercada de meninas, todo mundo comentava, mas que nada, Lavínia tinha era objetivo, como dizem, tinha foco na carreira, ela queria se formar para dar uma vida melhor para sua mãe e seus irmãos, e eu como a conhecia melhor, sempre me dizia que ia chegar lá, eu balançava a cabeça e concordava, ela era persistente e um pouco teimosa, mas eu amava ela, fazer o quê. Os anos se passaram rápido demais, tão rápido que não percebi que no dia da nossa formatura, ela estava como sempre linda, mas compenetrada e sua mãe emocionada, gritava aos quatro cantos “Aquela é minha menina, aquela é minha menina”, ela se formou em primeiro da turma e teve a honra de fazer o discurso de formandos, sei que é meio chato dizer isso, mas as palavras dela me tocaram profundamente e devo confessar que chorei em alguns momentos, talvez chorasse, pois sabia que não a viria mais, ou talvez estivesse chorando por saber que “ela chegaria lá”.

Lavínia passou entre os primeiros na Universidade de São Paulo para o curso de jornalismo, era seu sonho, seu objetivo, durante os quatro anos do curso tive muito pouco contato com ela, vez ou outra nos falavá-mos por telefone, mas aquela correria toda de São Paulo, eu estudando e tra-balhando, ela também, sobrou muito pouco tempo para nos-sa amizade, e a coisa foi descambando e indo para o brejo como se diz. Certo dia recebi o convite de sua formatura, mas não cheguei a ir, eu estava namorando e não queria ver La-vínia novamente, achei que meus sentimentos voltariam a se manifestar, resolvi me isolar e sinceramente, fiquei bem triste por esta minha atitude, eu deveria ter ido a sua formatura. Recebi notícias dela quando foi transferida para Paris, ela virou correspondente internacional, ela trabalhava numa grande editora como redatora de moda e foi transferida justo para a capital da moda, pensei comigo, seu sonho está a caminho. Lavínia desde seus 12 anos desenhava roupas nos mais diversos modelos e estilos em seus cadernos da escola, não havia um simples espaço em branco vazio sem seus rabiscos e esboços, a professora Nanci de artes sempre a elogiava e ninguém entendeu na época quando optou por jornalismo e não design de moda ou coisa parecida, mas como todos sabiam da situação de sua família, ninguém se importou muito com isso. Bem, acontece que nesta transferência do Brasil para Paris, ela chegou mais próximo do que queria. Seu objetivo não era ser jornalista, mas sim estilista, usou a profissão como um trampolim para conhecer as pessoas certas, tanto deu certo que certo dia, conheceu nada menos que a editora da Vogue América, e através dela conheceu um dos grandes nomes da moda parisiense, tal de Jean Paul alguma coisa, o fato é que nesse primeiro encontro, Lavínia como sempre abusada, mostrou uns desenhos seus para o estilista, o francês gostou tanto, que contratou ela para trabalhar em seu estúdio imediatamente, é claro que existem alguns fatos que não narrei aqui, mas existem coisas que sorte é um fator importante no sucesso de uma pessoa, acho que ser positivo como ela sempre foi, ajuda bastante. Ela permaneceu neste estúdio por uns dez anos, até que com o conhecimento adquirido e com seus contatos no mundo todo lançou no verão sua primeira coleção, que não preciso nem dizer, mas foi sucesso, por isso estava nas páginas da Vogue. Hoje Lavínia é uma mulher de sucesso internacional, continua linda como nunca, apesar de sua idade, mas um fato na matéria me chamou a atenção, aonde diz que continua “solteira” por opção e que não poderia se casar nunca, pois amou tão intensamente quando adolescente, mas optou em esconder seus sentimentos para que não perdesse o foco dos seus objetivos profissionais, resumiu a repórter da Vogue que: “optou por perseguir seu sonho profissional e renegou a segundo plano sua vida pessoal, mas que sabe que seu amor, mesmo no silêncio absoluto foi retribuído através dos olhares e pensamentos vividos numa grande amizade da adolescência e permanece eterno em sua alma...” Quando li aquilo, uma comoção tomou conta de mim, e como um pobre coitado imaginei, vejam só que pretensão, que seria eu seu grande amor, também delirei ao imaginar que ainda teríamos alguma chance num futuro não tão distante, fui acordado lá pelas cinco da tarde por meu filho que me puxava pela cami-sa e dizia “pai você não vem, a mãe está esperando”, notei a revista aberta sobre minha pernas com a foto de Lavínia olhando para o vazio, meu pé estava dormente, acho que cochilei ali enquanto viajava nos sonhos relembrando os tempos de nossa infância e adolescência, pude perceber e imaginar naquela foto da revista, que aquele olhar vazio e triste procurava em algum lugar a felicidade, fechei a revista e a coloquei no mesmo lugar que achei, naquela tarde, tive a sensação de uma dor enorme no coração, algo como te su-focasse subitamente, fiquei sem saber até hoje qual foi o grande amor de Lavínia, mas tenho certeza que ela foi meu grande amor.

Sorriso Em Lábios de Carmim (do livro MARCA D'ÁGUA - Contos de Amor e Morte, 2009)

Ao som do Queen, a escuridão avançava pelos lados há mais de 120 km por hora enquanto à sua frente, os faróis iluminavam com furor a rodovia desconhecida, Luís estava só indo em direção à pequena cidade de Santa Rita do Passa Quatro, seria pela primeira vez, não conhecia, apenas de nome e não sabia o que lhe esperava. Já eram mais de meia-noite quando chegou à pequena cidade, com sua praça e ruas iluminadas timidamente, achou após alguns minutos um pequeno e simplório hotel, aonde sem pestanejar resolveu parar e se hospedar. Foi recebido por um velho senhor com mais de 70 anos, simpático e falante que se propôs de forma agradável lhe mostrar seus aposentos, simples, porém necessário para aquela noite de sonho. Uma pequena cama de solteiro, um criado-mudo e um pequeno guarda-roupa que mais lembravam terem saídos do museu do Ipiranga. A cama estava bem arrumada com antigos, mas bem limpos lençóis de algodão, o piso de taco, meio riscado, dava certa nostalgia ao local, tudo combinava perfeitamente, desde as paredes levemente caiadas até a enorme janela pintada de azul com vista para a praça e rua principal da cidade, aonde se podia notar num canto, quase que meio acanhado um divino coreto bem decorado com madeiras trabalhadas e torneadas de muito bom gosto e simplicidade. Luís gostou do que viu, deitou-se lentamente sobre aquele colchão de molas que rangeram ao receber o peso de seu corpo cansado, ajeitou com murro o pequeno travesseiro que parecia ser feito de paineira, olhou rebuscamente para o teto aonde percebeu uma pequena luminária em forma de lampião, decorando com uma pequena lâmpada aquele teto forrado de madeira com leves sinais de cupim, num tom azulado, mas levemente deformado talvez pela chuva e pelo tempo, calculou que aquele prédio deveria ter uns cem anos, nestes pensamentos, adormeceu pesadamente vencido pelo cansaço de um dia inteiro de viagem. Luís era um representante comercial de produtos de limpeza e miudezas em geral, vendia um pouco de tudo. Pela primeira vez estava ali naquela cidade, à região era nova para ele, estava substituindo seu velho amigo Osmar que havia se aposentado e deixado para ele toda a sua carteira de clientes, não era uma grande carteira, mas, como dizia Osmar, “boa gente, bons pagadores”.

O canário terra já gorjeava no alto da velha aroeira que ficava no meio da praça, assim como se ouvia ao longe um sabiá laranjeira alegremente cantarolando, podia se notar bem próximo um velho sanhaço saltitante a bicar levemente um mamão maduro. Espreguiçou-se lentamente, sentiu uma leveza estranha pelo corpo, com os pés descalços no chão, caminhou até o espelho do banheiro e notou sua expressão de sono. Rapidamente, jogou levemente uma água gelada no rosto, vestiu-se e caminhou lentamente até o saguão do pequeno hotel aonde era servido em boas e grandes porções um notável desjejum da manhã, regado por frutas, sucos, leite, café, torradas, patês e doces. Um verdadeiro festival de gostosuras. Sentou-se em uma das mesas do canto após servir-se fartamente de todos os quitutes, enquanto saboreava seu desjejum, observava uma meia dúzia de outros hospedes espalhados pelo saguão, tipos bem diferenciados e presumiu que a maioria era daquela região mesmo, somente ele era da capital, notou por diversas vezes alguns olhares de curiosidade, mas, acostumado a esta vida de viajante, ignorou por completo e se absorveu em seu café.

Deu seus primeiros passos pela cidade após uns quarenta minutos, desceu uma íngreme alameda de paralelepípedos aonde presumiu ser ali o centro do comércio da cidade, devido à enorme quantidade de lojinhas emparelhadas oferecendo um pouco de tudo. Procurou os antigos clientes de Osmar, se identificou como novo representante, e pode perceber que fora bem recebido, se simpatizou muito com os comerciantes locais, notou também que era um povo simpático e hospitaleiro, sinceramente, não estava muito acostumado a caminhar pelas ruas e ser cumprimentado por todos os desconhecidos freneticamente, estranhou de início pela manhã, ao final da tarde já estava habituado e gostava de tudo quilo, um sorriso estampava seu rosto como há muito tempo não se via, percebeu que já era por volta das seis da tarde e comércio começara a baixar suas portas, não perce-beu a velocidade das horas, se apressou em atender o último cliente, pois na manhã seguinte tomaria outro rumo, visitando a próxima cidade de seu roteiro. Ao chegar a seu último estabelecimento, foi muito bem recebido por um senhor de meia idade, falante, simpático que lhe desejou boa sorte na nova fase, após uns trinta minutos, fechou um grande pedido de produtos de limpeza, quando Luís estava saindo, topou de cara com uma doce e meiga menina, que o cumprimentou meio sem jeito, com um olhar tímido esverdeado, um sorriso contornado por belos lábios desenhados no mais belo batom carmim, suspirou e retribuiu o boa tarde, meio sem jeito, olhou para trás e pode por um canto dos olhos perceber a linda menina beijar na fronte seu novo cliente, caminhou em direção ao hotel tendo em sua memória aquele rosto lindo.

Por volta das 20:00h, depois de servido o jantar no saguão do hotel, Luís resolveu dar uma esticada pela praça, notou que a mesma estava muito movimentada e percebeu que nela havia um carrinho de pipoca com uma pequena fila se formando ao redor dela, deduziu que deveria experimen-tar e foi até o local, se colocou atrás de um casal que apaixonadamente se beijava debaixo de uma linda lua que iluminava todo o céu. Luís observava o movimento da praça sem se dar conta que atrás de si estava à menina linda que havia visto no final da tarde. Num desses surtos de bobeira, percebeu abruptamente que estava perto dela, uma sensação de dormência nos pés lhe ocorreu e ficou como se paralisado diante da possibilidade de poder conversar com ela, percebeu que ela estava com uma amiga e conversavam animadamente, virou-se e tentou puxar assunto com as duas, tentando fortuitamente não olhar diretamente naqueles olhos maravilhosos, pensava que se os fitasse diretamente teria um troço ali mesmo, conseguiu em alguns segundos tabular uma conversa com as duas bem animadas, quando chegou sua vez de pedir a pipoca, se ofereceu para pagar para as duas meninas que aceitaram, notou o porquê da fila no carrinho de pipoca, ela era sensacional com amendoins e queijo em cubinhos fritos, caminharam um pouco os três pela praça conversando animadamente como se já se conhecem há alguns anos, acharam um banco vazio debaixo de um ipê amarelo, sentaram e tabularam conversa por mais de uma hora. Luís não percebeu as horas passarem, não percebeu o movimento da praça, não percebeu as crianças correndo com seus balões coloridos cheio de gás, não percebeu que uma pequena banda formada por alguns velhos senhores, tocava animadamente fazendo para ele uma trilha sonora. Luís somente dava conta de observar os lábios e olhos daquela menina, estava estupefato diante de tanta beleza. Somente percebeu o tempo quando apressadamente, as duas se levantaram exclamando que já era tarde e seus pais deveriam estar preocupados. Luís esboça um leve ar de tristeza, e mesmo a contra gosto despede-se das duas debaixo de um céu estrelado, segura na mão da linda menina e flerta um leve beijo na face, as duas saem rindo, achando graça daquilo descendo pela ladeira, quando em desespero, Luís grita: “me diz qual o seu nome?”, enquanto que ela responde bem ao longe: “Miriam”, responde angelicalmente, enquanto sua amiga rindo confirma: “o nome dela é Miriam, ela te achou lindo”, saem ao som de gargalhadas, achando muita graça. Luís apenas observa as duas desaparecem no fim da rua, pensa continuamente: “eu também, eu também... linda menina de lábios carmim.”

Luís, a cada três meses passava pela cidade para vender seus produtos, sempre com esperança de reencontrar Miriam. Quando retornou pela última vez, soubera que seu pai havia falecido uma semana depois da sua última visita e que a família havia se mudado para Pirassununga. Tristemente Luís tentou em vão esquecer por aquele rosto lindo, mas os olhos e lábios de Miriam faziam parte de seus pensamentos por onde fosse. Dois anos se passaram desde aquela noite especial, quando Luís já denota certo esquecimento, num desses auto-postos na bei-ra da estrada, numa dessas paradas para um breve café, vislumbra de longe uma linda menina, seu coração dispara, sua respiração se torna ofegante, suas pernas tremulam e num certo ímpeto de atropelo e desespero, tenta correr em sua direção, lhe abraçar, lhe beijar e dizer a todos os cantos o quanto à ama, freia bruscamente ao notar ao seu lado uma bela senhora que presume ser sua mãe, porta nos braços um pequeno bebê envolto em um cobertor rosa, estende seus braços e o entrega para Milena que o recebe e afaga com carinho junto ao seu rosto cheio de ternura. Luís diante daquela imagem percebe uma lágrima lhe correr a face, enxuga disfarçadamente e freia seu ímpeto, calado sai dali sem ao menos olhar mais uma vez para traz, desaparece pela estrada como se fosse rumo ao infinito. Dentro do restaurante, a amiga de Miriam se aproxima, pega o bebê dos seus braços e diz: “obrigada amiga por ficar com Carolzinha enquanto fui ao toalete...”, Miriam balança a cabeça com um leve sorriso e caminham juntas em direção ao pátio onde o ônibus com destino a São Paulo as aguarda para embarque.

O Plantador De Girassóis (do livro MARCA D'ÁGUA - Contos de Amor e Morte, 2009)

Antonio assoviava próximo ao carvalho depois de passar a manhã semeando alguns girassóis numa área próxima ao ribeirão. Estava naquele dia extremamente feliz e se percebia pelo seu semblante sereno e lúcido, um sorriso de lado a outro em seus lábios ressecados pelo sol constante de um trabalho árduo da lavoura de seu pai. Era um bom filho, era um bom irmão, adorava e reverenciava a natureza, apreciava com sabedoria o cântico dos pássaros e admirava e reconhecia com destreza a beleza das flores, principalmente os girassóis. Antonio acha que eles são mágicos e sábios, pois persegue de forma única o sol em seu caminho pelo céu azul, gostava de passar ali, horas a fio, debaixo do carvalho que seu bisavô havia plantado no século passado, muita estória por ele passou, muita chuva e sol, seus galhos vigorosos e rústicos presenciaram, além de ver o pequeno Antonio, agora moço, se tornar lentamente naquele formoso rapaz. Nas horas de folga, após trabalhar no cultivo de café do velho pai Alfonso, gostava de se banhar no ribeirão com águas límpidas e cristalinas, gostava de sentir o gélido roçar das pequenas ondas de água em seus pés trincados por andar descalço pelo chão, sentia um prazer enorme e indescritível de estar ali, apenas ouvindo o vento, ouvindo o borbulhar das águas na pequena cascata, ver os pequenos lambaris se escondendo rapidamente por debaixo das moitas de capim guiné, num simples e rápido tremular da água. Antonio era assim, simples, meio caboclo do mato, indomável, tímido, mas feliz. De hábitos simples, gostava de um bom arroz com feijão, um belo pedaço de carne cozida no fogão a lenha de sua velha mãe, gostava de sentar no chão, e sobre as pernas apoiar o antigo prato de ferro, trazido por seus antepassados da terra natal, longe e distante, além mar. Aliás, Antonio nunca havia visto o mar, ele nunca havia saído dali, daquele pedaço de terra desde que nasceu. Tudo o que conhecia se restringia a fazenda de seu pai, e as fazendas vizinhas com o qual tinha boa amizade. Sempre ia às festas da fazenda do seu Joaquim, um velho português que gostava de fazer uma bacalhoada como ninguém, Antonio não tonto nem nada, sempre estava lá, presente participando das festas, gostava de ver os peões montando os touros brabos, ria muito quando um deles voava pelos ares e se esborrachava no chão. Mas no fundo mesmo, Antonio gostava de ficar em casa, cuidar de seu campo de girassóis, cuidar de seus porcos, galinhas e passarinhos. Gostava de jogar conversa fora com seu pai, sua mãe e seus dois irmãos em roda do fogão de lenha, gostava de sentir o calor e de ouvir o crepitar da lenha verde estalando sob o fogo, achava de uma forma estranha que o fogo era mágico e não compreendia muito bem o que fazia aquilo tudo ser tão mágico. Antonio nunca foi à escola, não sabe escrever, nem ler, também não sabe assinar seu nome, mas tem orgulho de ser um mateiro como ninguém, faz armadilhas com destreza, faz gaiola, faz horta, faz jardim, corta a lenha, ara a terra. Assim era sua vida pacata, naquela imensidão de sertão, um pequeno paraíso de terra esquecido pela civilização em pleno século XXI.

Uma única coisa que Antonio admirava do homem da cidade, era o tal de avião, por vezes meio surpreso, via ao longe aquilo voar como um pássaro e sumir no horizonte, não entendia como se podia aquele negócio de ferro voar e com um monte de pessoas ali dentro, achava aquilo mágico e ao mesmo tempo assustador, dizia a todos que nunca colocaria o pé naquele “troço que voa”, às vezes ria da sua própria ignorância de tanta simplicidade que havia em seu coração. Era um ser humano bom, completo, uma bondade extrema para tudo e para todos e um segredo que guardava consigo a sete chaves. Tinha uma enorme paixão por Anabela, a filha de seu Joaquim, que desde pequena corria por entre os campos com seus belos e loiros cabelos, seus olhos esverdeados deixavam Antonio sem jeito e às vezes até sem palavras. Cresceram juntos, brincaram juntos, aprenderam a montar a cavalo no velho e bom Alazão de seu avô, mas o destino quis que se separassem por um bom tempo. Anabela foi para a cidade estudar para “doutora” como dizia. Todos os anos nas férias de Junho e Dezembro, Antonio esperava na porteira da fazenda o velho e bom ônibus trazendo sua Anabela, por seis longos anos, Antonio esperou por estes meses com aflição em seu coração, não sabia e não compreendia direito o que era amar, apenas sentia algo mágico como um frio na barriga, um tremor nas pernas, um suadouro incontrolável quando via sua Anabela descendo como se flutuasse pela escada da porta do ônibus. Ela sempre sorrindo com seus belos lábios de anjo, sempre lhe dizendo um “oi” tão doce e suave, sempre com um aceno de saudade que fazia Antonio sonhar, sonhar com uma pequena casinha branca, cercada pela serra da Mantiqueira, rodeada por uma bela e simples varanda com vasos floridos por girassóis, aonde as crianças poderiam brincar com liberdade sem se preocupar com o amanhã. Belos e tentadores sonhos aqueles de Antonio.

Anabela numa tarde de verão retorna e como sempre Antonio estava lá, pendurado na porteira, vendo de longe a poeira que o ônibus levantava. Seu coração até acelerava de ansiedade, se ajeitava o cabelo, um último toque na camisa amarrotada, bate levemente na botina já meio carcomida pelo tempo e espera, espera até que o ônibus pare. Abre a porta diante de teus olhos, vê Anabela, como sempre cada vez mais linda do que o mais lindo girassol, mas que vê de repente um rapaz lhe põe a mão no ombro e a ajuda a descer, mas quem é aquele homem tão estranho, com jeito de moço da cidade, indaga Antonio sem nada entender, aquele moço esguio e charmoso, pega na mão de sua Anabela e se aproxima como que se furtivamente roubasse o que um dia, Antonio achou que era dele. Anabela sorri constrangida, e meio que indelicada apresenta o moço estranho: “... sabe Antonio, este é o Dr. João Pedro, meu noivo, vamos nos casar no ano que vem...” Duras palavras para um amigo caboclo que sem perceber sorri simpaticamente, estende a mão para Anabela e a felicita por tal feito, mas pobre de seu coração que desvairado o deixa ofegante e com as pernas quase frouxas, se segura na porteira que abre quase o levando ao chão, vê-se surpreso por tal novidade, vê seu sonho indo ao chão. Anabela despreocupada caminha de mãos dadas com seu João, enquanto Antonio observa ao longe. Uma lágrima lhe cai ao rosto, que surpreso em expressar tal reação, se envergonha do que sente e sai caminhando pela estrada sem rumo nem direção, sem pensar ou pestanejar vai até o campo dos girassóis e debaixo do velho carvalho, enterra suas lágrimas por Anabela.

Reticências De Uma Guerra (do livro MARCA D'ÁGUA - Contos de Amor e Morte, 2009)

Mariana tinha aquela dor no peito que era constante, assim como uma saudade amargurada que corrói a alma embriagando o corpo e adormecendo a mente. Sabia-se que na distância, haveria o medo da falta, haveria a solidão impregnada no cheiro do outro corpo que falta. Há muitos anos estava ali à espera de Túlio, que partira junto ao comando do exército numa missão de ajuda humanitária no Haiti. Uma guerra civil e sangrenta que eclodira em fevereiro de 2004, conflitos armados surgiram em Gonaives, espalhando-se por outras cidades nos dias subsequentes. Gradu-almente, os insurgentes assumiram o controle do norte do Haiti. Apesar dos esforços diplomáticos, a oposição armada ameaçou marchar sobre Porto Príncipe. Aristide deixou o país em 29 de fevereiro e asilou-se na África do Sul. Uma guerra civil emergiu no país consumindo milhares de vidas. Eram crianças e mulheres morrendo de fome por entre aquelas aldeias abandonadas a miséria. O politicamente correto estava incorreto, e Túlio como um bom e servil soldado, estava ali para amenizar o sofrimento daquela gente numa missão de paz pela ONU. Entre rajadas de metralhadoras e ba-las de diversos calibres, na capital Porto Príncipe, Túlio caminhava com pensamentos voltados ao Brasil que deixara com saudades de sua amada Mariana, em breves relâmpagos de lembrança em sua memória, podia se delirar sentindo seus beijos quentes roçar a sua pele morena. Podia sentir seus lábios úmidos de desejo lhe tocar a face, e com olhos cerrados, por instantes, podia se isolar na mais pura sensação de ter ela ali diante de si. Como um bom comandante Túlio sabia que seus subordinados, assim como ele, tinham na mente a saudade de suas famílias, e sempre que possível, entre uma missão e outra, tentava alegrar alguns de seus mais próximos amigos, com brincadeiras do tempo de colégio, muito se tentava esconder por ali, e muito se tentava esquecer também. Cenas de violência e morte eram uma constante no dia a dia daqueles soldados que acostumados, vez ou outra carregavam em seus colos pequenas crianças esqueléticas para os acampamentos da Cruz Vermelha na esperança de salvar algumas vidas. Túlio se acostumara com a sede, com a fome, com o frio, com a saudade, mas não se acostumar com a morte, apesar dela fazer parte integrante de sua vida, sempre próxima, sempre esguia e furtiva, a espreita em cada missão por aqueles becos sujos de lama e esgoto, becos mal cheirosos e cheios de doenças e dor. Mariana no Brasil sentia com sua alma, a angústia de Túlio do outro lado do oceano. Pelos telejornais acompanhava com apreensão qualquer noticiário que falava daquela cala fausta guerra. Seus olhos não desgrudavam um só segundo da tela, e seu coração disparava com desespero ao ver, mesmo que por breves momentos, imagens de soldados brasileiros em tanques de guerra passando pelo meio de escombros e uma multidão de famintos. A esperança de ver Túlio se tornava pública a cada cena da reportagem, mas por desencanto, nunca o via, apenas sentia que estava ali. Vez ou outra uma carta postada há meses chegava a sua mão, com palavras de carinho, de amor e de saudades, algumas fotos recentes estavam coladas no álbum para uma breve busca. Sempre com mensagens de esperança, Túlio relatava em suas às vezes mal traçadas linhas, o dia, à noite e as madrugadas sem dormir, preso a uma ansiedade de não se saber o futuro. Sempre de forma carinhosa, brincava com certas palavras e fazia de certo modo piadas com a própria desgraça. Lamentos escritos como em versos poéticos, desventuras de um soldado em uma terra distante. Os meses para Mariana pareciam anos, mas para Túlio parecia ser uma eternidade, pois a angústia crescia visceralmente no peito. Para Mariana o retorno de Túlio ao Brasil, significava mais do que a volta do seu homem amado, significava uma vida inteira de sentimentos vivenciados desde a tenra idade. Conheciam-se desde pequenos, quando com quatro anos, se deram as mãos no balanço do parque, e num beijo na face, simples e sem pretensão, juraram ficar junto o resto de suas vidas. Chegou à adolescência e conflitos tornaram a relação instável, mas o amor que sentiam, a energia que trocavam, superava tudo aquilo que lhes tentava afastar. Muitos furacões passaram por eles até a fase adulta, quando com o mês escolhido do casamento, Túlio recebe de seu comando, ordens para embarcar em uma missão de paz. Vê nesta missão a oportunidade de encerrar talvez a sua carreira militar com honras e méritos, além de uma boa ajuda de custo durante os anos que permaneceria fora. Marina não gostou e aceitou muito bem a ideia de inicio, mas, percebeu que era o que Túlio queria, concordou com ressalvas e passou aqueles últimos meses diante de uma imagem de Santa Rita, sempre orando e pedido para que o protegesse e o trouxesse de volta. O retorno era aguardado com ansiedade, pois o casamento estava marcado, a casa pronta e Mariana em toda a sua carência afetiva, chorava às vezes por horas a fio em seu quarto, sua mãe preocupada, apenas ouvia os lamentos da filha sem poder fazer nada, apenas orar para que aqueles momentos apenas ficassem na memória como vagas lembranças.

Um novo amanhecer em Porto Príncipe, excepcionalmente naquela alvorada, o vento soprava suavemente de norte para sul, apenas podia se observar os galhos das arvores se deslocarem com pequena fluidez. Túlio estava no terraço de um velho e abandonado hotel, que servia de base para os brasileiros. Olhando o horizonte e vagando em pensamentos, talvez estivesse beijando como a brisa, o rosto lindo e sedoso de seu grande amor. Com um olhar vivido e perspicaz, volta-se para a rua principal, aonde uma pequena multidão de famintos, como em todos os dias se aglomeram e se acotovelam ferozmente em busca de um café da manhã, nota entre aqueles pedintes um negro alto e esguio que de forma furtiva se sobressai por entre eles, acompanha com o olhar todos os seus passos, repentinamente pode perceber que o rapaz esta sendo perseguido por mais outros quatro negros armados, com sua habilidade militar, nota que um dos quatro tem nas mãos uma granada, sentindo que o rapaz vai atirar a granada sobre a multidão, dá um grito de alerta aos soldados no térreo e simultaneamente, pula cerca de três metros do terraço até o solo, gritando com a multidão para que saiam dali. Num rápido sobressalto e com muita agilidade, consegue segurar o rapaz pelo pescoço, neste rápido ínterim, o mesmo desarma a granada tentando arremessá-la contra os portões do quartel em direção a multidão que tenta se proteger, num giro de destreza, segura a granada com as mãos e a coloca sobre o corpo do rapaz pressionando contra o seu peito, alguns milésimos de segundos numa luta corporal desigual, um breve, mas trágico e tomado pelo medo, todos se abaixam quando a granada explode. Apenas pedaços de corpos são encontrados atirados e queimados por todos os lados, um som de lamento e socorro vem de certa distância, num monte de lixo e madeira, Túlio ainda vive, balbucia algumas palavras e perde os sentidos. Uma multidão o cerca dando aos soldados muito trabalho para a remoção de seu comandante.

Um ano depois no Aeroporto de São José dos Campos, dentro da base aérea. Mariana, sua mãe e seu pai, aguardam ansiosos, o voo vindo de Porto Príncipe. Um avião da FAB foi especialmente fretado para este fim. Lágrimas involuntárias percorrem seu rosto enquanto o avião faz o taxiamento na pista, ao se aproximar lentamente em sua direção, seu coração palpita como se fosse explodir em pedacinhos, uma aflição lhe corrói, rói as unhas quando a porta é aberta, vê Túlio carregado por dois soldados, trajando sua farda de gala e por sobre sua jaqueta, inúmeras medalhas de honra e mérito, uma cadeira de rodas aguarda no pé da escada. A banda da FAB toca o hino nacional, aplausos se ouvem de alguns soldados enfileirados diante de um tapete vermelho. Túlio é colocado na cadeira de rodas e passa em revista aquela pequena tropa, no fim do tapete, Mariana, contendo as lágrimas, esboça um sorriso forçosamente ao ver a imagem de Túlio, apenas seu corpo, sem seus membros, pernas e braços. Num contido, mas aguardado choro, corre, se ajoelha e o beija longamente. Ele não pode abraçá-la, mas chora como criança e a beija como se fosse seu último momento. Algumas garças passam pelo céu, as nuvens surgem como do nada, o sol que lá fora brilhava apenas se esconde, talvez pela vergonha, talvez pelo medo de ter sido o culpado.

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